Kotonoha no Niwa

Oi, pessoal!

Leia esse post ouvindo Photograph (Offonoff) ou You, Clouds, Rain (Heize)

Semana passada eu escrevi aqui no ME ANIME sobre o Kimi No Na Wa, um filme do Makoto Shinkai feito pelo estúdio Comix Studio. Portanto, ainda na vibe existencialista e contemplativa de KNNW, vou falar hoje sobre Kotonoha no Niwa (Garden of Words/Jardim das Palavras), também do mesmo criador e estúdio.

KnN é um filme curtinho, tem apenas 45 minutos de duração – com cena pós créditos. A história se passa em Tóquio e o autor a descreve como sendo um conto de “solidão melancólica”, e já no início do anime sentimos essa sensação forte, por causa do visual e trilha sonora – ambos muito presentes e marcantes. Pra mim o filme é sobre como podemos encontrar forças nos lugares mais inesperados, seja em um jardim nos dias chuvosos, seja em casa ou em qualquer lugar. Fala sobre um amor puro que nada cobra em troca; fala sobre perseverança e correr atrás dos seus sonhos, mesmo que custe caro.

O filme é muito fluído e, mesmo em tão pouco tempo, podemos observar o desenvolvimento do relacionamento dos dois protagonistas – da vontade, né, Game of Thrones, de um roteiro de romance como esse? HAHAHAHAHA #JonerysNemÉGente – e a evolução do amor. Eu não vou entrar no assunto de um relacionamento entre uma mulher de 27 anos e um rapaz de 15 – seria pedofilia ou não? Creio que a discussão tiraria o foco do post, embora eu acredite que um relacionamento como esse não seria muito ok. No entanto, os dois não chegam a se relacionar como um casal, e o amor nutrido entre eles é puro e infantil.

Takao Akizuki tem 15 anos e é apaixonado pela criação de sapatos. Ele é um garoto esforçado e dedicado, embora não seja um excelente aluno. Tem uma visão muito peculiar do mundo, e já no começo do anime ele diz que quando era mais novo o céu era muito, muito mais próximo dele, e que hoje ele gostava da chuva pois sentia o cheiro do céu nela. Por isso, em dias chuvosos, Takao matava aulas pra ir ao Jardim Nacional Shinjuku Gyoen.

É nesse jardim que ele conhece Yukari Yukino. A princípio eles não conversam direito, e as poucas palavras que trocam são tímidas e desajeitadas. Takao joga aquela de “já te vi em algum lugar” e, percebendo o emblema do colégio onde ele estudava, ela responde que talvez já tivessem se encontrado antes. O menino fica confuso, mas não tão confuso como quando, de repente, ela se levanta e recita pra ele um tanka (que significa, literalmente, “poema curto”):

Narukami no sukoshi toyomite / O som leve do trovão,

sashi kumori / o céu nublado,

ame mo furanu ka / talvez a chuva venha.

Kimi wo totomemu / Se assim for, você ficará aqui comigo?

É ÓBVIO que esse menino ia se apaixonar pela ~mulher misteriosa~, né? Bem, Takao não entende exatamente o que quer dizer o poema, mas uma coisa ele sabe: que ela estará lá, no mesmo lugar, sempre que chover.

No próximo dia de chuva ele corre pro jardim e lá ele a encontra. Aos poucos eles vão se conhecendo e a história vai nos mostrando seus problemas e sonhos, e em todos os dias chuvosos eles se encontram no mesmo lugar e passam a manhã juntos. Takao se abre com ela e conta seu maior segredo – sobre seu sonho de ser sapateiro – enquanto ela continua reservada e relutante. Yukari claramente é uma mulher ferida (psicologicamente falando), e temos a confirmação disso quando ela conversa com um homem desconhecido ao telefone.

Mas logo a temporada de chuvas passa e os dois seguem seu rumo, imaginando o que o outro estaria fazendo. Takao prossegue com seu plano de juntar dinheiro pra investir em sua carreira, enquanto Yukari parece lutar pra superar algum trauma que sofreu no trabalho – além de traumas pessoais.

As férias de verão terminam e, finalmente, Takao descobre quem é aquela mulher de verdade – que ele sequer sabia o nome, embora tenha lhe contado tudo sobre ele. Neste momento o mundo de Takao é completamente abalado, e ele corre pro jardim pra encontrá-la. Lá, ele recita pra ela:

Narukami no sukoshi toyomite / O som leve do trovão

furazu to mo / mesmo que a chuva não venha

warewa tomaramu / ficarei aqui

imoshi todomeba / junto de você

Este é um Man’yoshu, um dos tankas do livro mais antigo de poemas japoneses. Esse tanka que ele recitou é (claramente) a resposta ao que ela recitou pra ele na primeira vez que eles se viram – chorando rios nesse momento HAHAHA Uma tempestade cai de surpresa, e os dois acabam passando a tarde juntos. O final do anime é surpreendente, embora provavelmente não seja como você gostaria – e nem eu.

Mas o final nos mostra que a vida é assim mesmo, e que nem tudo será como esperamos. Que às vezes um romance perfeito não é necessariamente sobre a história de um casal apaixonado, e que você pode continuar amando mesmo que as coisas não saiam como o esperado. A vida é cheia de momentos felizes – pois a felicidade não é um estado de espírito constante – e nós devemos saber apreciá-los.

No fim, eles aprendem com seus erros e aprendem a se reerguer e seguir em frente. Yukari, embora seja uma mulher mais velha, é inocente e infantil (mas não num mau sentido) e, segundo o autor, é isso que ele também queria passar: que, às vezes, as pessoas mais jovens são mais maduras do que as mais velhas, e que podemos (olha eu me incluindo no bonde dos mais velhos HAHAHA) aprender com elas também.

Kotonoha no Niwa é um filme extremamente sensível e bonito, e já é a terceira vez que eu o assisto pois me faz refletir sobre muitas coisas e também me faz acreditar na força do amor – mais do que eu já acredito. O filme foi exibido em 2013 junto do curta Dareka no Manazashi (eu podia ter assistido esse anime tantas vezes se tivesse conhecido antes, ai ai) escrito também por Shinkai. Encontrei ele no youtube e, embora a legenda não esteja perfeita, dá pra entender:

Não se esqueçam de assistir à cena pós crédito, que faz o filme ser ainda mais tocante. Fica aqui minha profunda indicação, espero que assistam e apreciem – o anime está disponível na Netflix. Se assistirem, comentem aqui o que acharam, vou amar conversar sobre ele com vocês.

É isso!

Até o próximo post,

A.

 

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